Restaurante africano traz para Porto Alegre ingredientes nativos com aroma, sabor e muita história

Espaço comandado pelo chef senegalês Sidy Gueye completou um ano de existência no início do mês

Pedro Pereira

Reportagem por Marco Charão e Pedro Pereira

Localizado na Avenida Nova York, o Teranga África representa 54 países em seu cardápio
Localizado na Avenida Nova York, o Teranga África representa 54 países em seu cardápio / Reprodução: Julia Sampaio

Quem estivesse circulando entre a esquina da Avenida Nova York com a Avenida Berlim em Porto Alegre no final de semana dos dias 8 e 9 de fevereiro teria o prazer de sentir o cheiro e escutar o som vindo do Teranga África, restaurante do chef Sidy Gueye. Apesar de situado entre as avenidas com nomes da cidade europeia e da metrópole norte-americana, o estabelecimento especializado em culinária africana ofereceu feijoada com samba, uma mistura completamente afro-brasileira.

O Teranga contou com uma série de eventos com atrações especiais em comemoração ao um ano do espaço inaugurado. Com apresentação de DJ, grupo de samba e barracas de vendedores parceiros que estavam expondo os seus produtos. Para ajudar na produção da cozinha, estava presente o chef Douglas Prates, amigo pessoal de Sidy que o ajudou quando o senegalês chegou ao Brasil.

O chef Douglas, que conta com 20 anos de experiência na cozinha, e hoje trabalha como personal chef, conheceu Sidy quando ele ainda estava trabalhando na área de higienização, logo quando chegou ao Brasil, e começaram a trocar vivências, ensinar o idioma  e trocar receitas. Para esse evento de um ano do restaurante, Douglas participou para ajudar nos pratos, e conta qual o diferencial da culinária africana. “As misturas de especiarias. Muito açafrão, curry, dendê, diversas pimentas. Gosto bastante desse mix de sabores que eles trabalham”, relata o chef brasileiro.

A comemoração também contou com barracas de vendas de parceiros. Fernanda Feijó, dona da Vidólé, que produz roupas infantis com tecidos africanos, ressalta a importância do lugar para propagar a cultura africana, e valoriza o espaço por representar tão bem os países daquele continente. Ana Rosa, empreendedora confeiteira, diz que o maior diferencial do lugar é conseguir trazer a culinária africana sem perder o gosto da comida brasileira. “Muitas pessoas têm paladares não tão aguçados para temperos, e a culinária africana é bem temperada. Mas ele consegue trazer o sabor da comida africana adaptando para o gosto do Brasil”, relata Ana.

O chef Sidy Gueye e sua parceira Desirée, em foto pendurada na entrada do restaurante
O chef Sidy Gueye e sua parceira Desirée, em foto pendurada na entrada do restaurante / Reprodução: Julia Sampaio

O chef Sidy Gueye é natural de Senegal e veio ao Brasil em 2014 para estudar e trabalhar. A paixão pela cozinha está no sangue. Ainda em Senegal, Sidy inspirou-se na mãe, que trabalha com alimentação no país africano até hoje. No Brasil, se encontrou na cozinha ao começar a trabalhar como faxineiro, eventualmente conseguindo uma oportunidade para trabalhar com a produção de massas de pizza, pontualmente, com o chef Douglas. Logo em seguida, conseguiu ser promovido da faxina para trabalhar especificamente com produção de massas e agarrou a oportunidade para mostrar o seu talento.

Com o tempo foi ganhando mais espaço e mais responsabilidades, assumindo eventos com mais pessoas. Tendo mais experiências com eventos e consultorias, e participando de eventos em outras grandes cidades, teve a ideia de começar o seu próprio restaurante focado na gastronomia africana. “Me chamavam para fazer consultoria de gastronomia sulista, americana… mas ninguém me chamava para montar uma de culinária africana” destaca Sidy.

Sobre o espaço, o chef senegalês se orgulha de ser único, não tendo concorrência com nenhum outro. “A culinária africana tem muitos detalhes, e está no meu sangue, é diferente de quem sai para estudar, a comida africana aqui (no Teranga) não tem igual”. Outro ponto que aponta como sendo motivacional para criar o restaurante, é a diferença cultural. O símbolo do restaurante é a árvore que simboliza a vida, chamada baobá, que representa hospitalidade, respeitar a comunidade.

Em relação ao preparo dos pratos, Sidy aponta que no restaurante eles prezam pela experiência da degustação e compreensão do sentido do alimento. “Não é só largar a comida e deixar as pessoas comerem, tem explicação, é uma hospitalidade com o convidado. Pensamos muito na qualidade e não na quantidade”.

Antes da abertura do buffet, exclusividade do final de semana de comemoração do aniversário do restaurante, o chef apresentou os pratos de feijoada e seus acompanhamentos clássicos do Brasil, como laranja, couve, farofa e arroz branco. O que diferencia a feijoada do Teranga da feijoada brasileira é justamente o ingrediente-chave de qualquer boa feijoada: o feijão, que vem direto de Senegal. Em seu avental de chef, Sidy fez de cada apresentação dos pratos um show, com aplausos e gargalhadas ao final de cada frase. 

Em uma explicação à parte acompanhada por três pratos recheados com o que estava disponível no buffet, Sidy também explicou que acredita, com base nas crenças dos povos africanos, que o alimento faz parte da cura para o ser humano. “As pessoas dizem que tem que correr para relaxar, para se desligar, isso não existe para nós. Antes de curar o corpo tem que curar a mente primeiro, e o alimento ajuda nisso. Quando tu come uma comida saudável, leve, vai ajudando o corpo”, afirma. Com um sorriso no rosto, o chef também alerta: “Quem come quiabo não pega feitiço”.

Além do feijão e dos temperos, a maioria dos ingredientes também vêm da África. “95% dos nossos produtos vêm da África. Vêm direto de lá. A gente tem café que meu irmão faz, sobremesas que são diferentes do que as pessoas estão acostumadas a comer. É por isso que eu falo sobre não ter concorrência.” Nas sobremesas da casa, vão ingredientes como beterraba, repolho e batata.

Sobre a movimentação no restaurante, Sidy diz que cada vez mais pessoas frequentam o lugar, com dúvidas sobre o espaço, os detalhes, e ele sente que Porto Alegre está começando a entender o que realmente é cultura africana, pois antes tinham mais reconhecimento fora da cidade, nos eventos que participa.

Ainda sobre a cultura africana, o chef contou como funcionam as suas receitas.  “Muita coisa não colocamos fora, como casca de alho, beterraba e  gengibre, que hidratamos e trituramos. São coisas que a maioria das pessoas não faz devido ao tempo, mas são coisas que para nós é normal. Nossas bebidas demoram de 6 até 24 horas, e nossos molhos começam em no mínimo 12 horas. Fazemos do zero e com calma, por isso pedimos para nossos clientes terem paciência”.

Como sonhos para o futuro, Sidy ressalta que sonha em alimentar pessoas que nunca viu na vida e conhecer pessoas que gostam de seu trabalho. Se o sabor da comida e a simpatia do chef são fatores para a realização destes sonhos, não há dúvidas de que o Teranga continuará lotado.

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