A religião dos vereadores e vereadoras de Porto Alegre

Levantamento exclusivo do Lab J revela a identidade religiosa dos escolhidos para a Câmara Municipal

Pedro Pereira

Por David Ferreira, Pedro Pereira e Rudá Portanova

As eleições municipais de 2024 trouxeram 13 novos nomes à Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Nesta terceira reportagem da série Religião e Identidade, o Laboratório de Jornalismo (Lab J) da Famecos apresenta um levantamento exclusivo sobre a religião dos eleitos na Capital. A maioria dos legisladores possui uma religião e a predominância é de crenças ligadas ao cristianismo: 20 dos 35 eleitos se identificam com o catolicismo, luteranismo, evangelicalismo ou são cristãos sem uma identificação religiosa específica.

Infográfico elaborado pelo Laboratório de Jornalismo (Lab J) da Famecos a partir de informações provenientes dos vereadores e vereadoras de Porto Alegre

Para Ricardo Martins, mestre em Sociologia e Ciência Política pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), há influência dessas identificações em relação à escolha do voto: “A religião faz diferença quando as pessoas definem o voto. Mas não tenho certeza se existe um acompanhamento tão importante por parte da população às discussões que ocorrem na Câmara de Vereadores”, afirma o pesquisador. 

Alguns dos vereadores eleitos também são lideranças religiosas, especialmente no segmento evangélico. Carlo Carotenuto e José Freitas, ambos do Republicanos, são pastores da Igreja Universal do Reino de Deus, enquanto Hamilton Sossmeier (PODE) é pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular. Giovane Byl (PODE) é membro da Igreja Batista Betel e é cantor de RAP gospel. Tanise Sabino (MDB), única representante mulher deste grupo, é membro da Igreja Assembleia de Deus e filha do pastor Jurandi Pazzim e da diaconisa Maria Izabel Pazzim. Além disso, a vereadora é casada com o Deputado Estadual e pastor Elizandro Sabino, tratado como candidato oficial da Assembleia de Deus. 

Mas a adesão a uma mesma religião não implica, necessariamente, em coalizões políticas. Ao analisar o levantamento da reportagem, o professor Ricardo Martins chama atenção para a variação de partidos entre vereadores e vereadoras de religiões de matriz africana: “Apesar de ter cinco pessoas que fazem parte das religiões de matriz afro, não tem necessariamente uma coesão muito forte”, nota Ricardo. “Temos PT, PSOL e outro PT, então existe ali uma maioria de centro-esquerda, mas também tem o MDB que é de centro e o PSD que é de centro-direita”, completa.

Ricardo questiona também as intersecções entre ideologia política e religião levando em consideração os marcadores sociais que envolvem o perfil de cada representante político: “Uma pessoa de matriz afro e que é de direita, por exemplo, ela está um pouco em disforia com aquilo que é esperado por uma pessoa de matriz africana, que professa essa religião”, avalia o professor. “Agora uma pessoa de direita que está inserida em um contexto de religião evangélica, ela já faz parte do esperado para aquele perfil”, conclui.

A presença da religiosidade na política não é uma novidade, mas está crescendo. Para além do apelo a pautas econômicas, identificações partidárias e auxílio prestado à comunidade, a presença de candidaturas religiosas cresceu significativamente. Segundo o Instituto de Pesquisa e Reputação de Imagem (IPRI), houve aumento de 225% de candidaturas municipais que usam de forma explícita a identidade religiosa em seus nomes de campanha nos últimos 24 anos. A pesquisa ainda esclarece que nas eleições municipais de 2024, os termos nominais mais recorrentes são: pastor (2.856), irmão (1.777), pastora (862), irmã (835) e missionária (247). Juntos, eles somam 6.557 candidaturas, o que dá mais de 91% do total de candidaturas identificadas com alguma religião.

O cenário nacional será tema da última reportagem especial da série Religião e Identidade. A série em quatro reportagens apresenta um panorama do tema na sociedade. A produção do Lab J também conta com uma reportagem com um mapa exclusivo sobre a concentração de estabelecimentos religiosos em Porto Alegre por bairros e depoimento em vídeo de três praticantes de religiões distintas na cidade.