Basquete comunitário da UFRGS une atletas há mais de 25 anos

Doações de jogadores e vaquinhas entre a comunidade ajudam a manter o projeto

Andrei dos Santos Rossetto

Reportagem de Marco Charão

Idealizado pelo professor Mário Brauner, o projeto Basquete Comunitário surgiu em 1998 a partir da demanda de estudantes da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (ESEFID) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, principalmente das alunas, que não tinham onde praticar. Os dois primeiros anos atenderam exclusivamente às mulheres, com dois horários às segundas, quartas e sextas-feiras: um para iniciantes e outro para as equipes da Universidade e da ESEFID. “Parecia quase impensável para nós termos um projeto ocupando as duas quadras só com mulheres, mas conseguimos”, relata Mário. 

Depois disso, os espaços foram divididos entre os públicos masculino e feminino. Com a expansão, surgiu a ideia de organizar um campeonato masculino anual, aberto para times comunitários de Porto Alegre. Mário conta que começaram com quatro equipes e chegaram a realizar um campeonato para 16 times.

Reprodução / Rede social do projeto

Nos primeiros dez anos, o projeto ganhou visibilidade por meio da participação em campeonatos locais. Com os títulos conquistados, mais participantes aderiram ao projeto, e o Basquete Comunitário passou a representar o Rio Grande do Sul em competições nacionais. “No início, o projeto era menos massivo, com menos participantes e mais competitivo. Havia treino e competição tanto para homens quanto para mulheres. Isso nos levou a pensar que a função da universidade não era fazer esporte de competição. Nós queríamos encontrar um papel na formação e na motivação para a prática esportiva”, afirma Mário. 

A partir de 2010, o foco voltou-se para o aumento no número de atletas, e o projeto também passou a ajudar na formação de alunos bolsistas de educação física. Tales Moreira Becke, de 46 anos, atuou como monitor quando era estudante. Professor em uma escola particular e fundador do time OBB, de Osório, Tales participou do Basquete Comunitário desde o início. Sua primeira experiência profissional no projeto foi ao lado do professor Mário Brauner: “No início, tínhamos um pouco de medo de errar, mas, durante a monitoria, você tem o direito de errar, pois é o seu primeiro contato com a prática. Foi uma experiência muito legal, pois eu estava transmitindo meus conhecimentos e aprendendo ao mesmo tempo”, revela Tales. Hoje, Tales aplica o que aprendeu na ESEFID em sua rotina de treinos em Osório. Além de preparar os atletas tecnicamente, é essencial formar um grupo unido e que respeite os adversários, disse o professor.

Desde 2019, o projeto é conduzido pela professora Raquel da Silveira. Segundo ela, um dos papeis da universidade é prestar contas à comunidade, e uma maneira de fazer isso é oferecer o projeto gratuitamente. “Um dos nossos princípios é não efetuar cobranças, entendendo que a população já paga seus impostos e que é dever da universidade oferecer uma formação para os alunos em conjunto com a comunidade. Para isso, a extensão é um desses elos entre a graduação e a comunidade”, afirma a professora. Além disso, a proposta também é oferecer um espaço de lazer para a população: “É um tempo que precisa ter um significado. Para esse tempo ser bom, é preciso oferecer um significado para essas pessoas. E eu identifiquei que esse projeto é muito significativo na vida das pessoas que frequentam o local”, acrescenta a professora.

Flávio Sachs Beylouni, administrador de 53 anos, frequenta a ESEF desde o seu início, por indicação de uma das alunas do projeto. “Pessoalmente, fiz muitas amizades lá e fortaleci outras que já conhecia das praças”, revela o administrador. Segundo ele, “o professor Mário, além de incentivar o basquete por meio do projeto, também conseguiu que o ginásio sediasse muitos jogos do Campeonato Integração, que existiu entre 2001 e 2013.”

Para o servidor público Fabiano Moreira Corrêa, de 42 anos, o destaque está na gratuidade e no fato de o ginásio ser adequado e seguro. Hoje, “Kalunga”, como é conhecido, frequenta o projeto para fazer exercícios, reencontrar os amigos dos tempos de escola e fazer novas amizades. “A liberdade de ir quando eu quisesse, quando estivesse bem, fez com que eu lidasse com situações de frustração, de ter que dar um tempo, de ressignificar a minha história e voltar. Isso acabou me ajudando a me desenvolver como atleta e a lidar com pequenos grupos e conflitos”, revela o servidor público.

A professora Raquel afirma que o projeto enfrentou sérias dificuldades financeiras devido às reduções de investimentos em universidades públicas no governo anterior. A universidade, por exemplo, não consegue comprar bolas novas. Além disso, os responsáveis pelo projeto fazem vaquinhas para mantê-lo. No ano passado, foi possível comprar duas bolas novas, além dos materiais utilizados para fazer anotações nos quadros e para prestar primeiros socorros.

Hoje, o projeto conta com um bolsista remunerado, que trabalha 20 horas por semana. Além de participar das atividades, ele é responsável pelos relatórios de presença e pelas redes sociais. Mais dois bolsistas recebem bolsa do Programa de Educação Tutorial (PET), que permite que os alunos escolham um projeto para atuar, e mais três estudantes voluntários recebem horas de extensão para complementar a graduação.

Uma das metas é manter o horário da quadra, que acaba sendo muito disputado entre as outras atividades realizadas pela universidade. Para justificar a manutenção do espaço, o número de participantes é controlado por meio de um caderno, que é passado entre os jogadores para que eles assinem e justifiquem a importância do projeto ao longo do ano. 

Em 2024, mais de 600 pessoas circularam pelo local, que registrou o recorde de 67 participantes em uma única noite. Nesse mesmo ano, houve um aumento para oito times por noite, número máximo de participantes por noite. Nesse caso, abre-se uma lista de espera. Em anos anteriores, a média era de seis equipes por noite.  Raquel relata que muitas pessoas vão apenas para socializar: “As pessoas nem jogam e vão lá, elas sabem que não vão jogar por estarem machucadas ou porque têm um jogo no outro dia pelo time que jogam, ou porque estão cansadas e não querem jogar, mas vão lá para encontrar as pessoas, né?”.

Os professores acreditam que, apesar das dificuldades, o projeto vem cumprindo os objetivos. “O que tem chamado nossa atenção é reunir pessoas de diferentes bairros da cidade, de diferentes classes sociais, com diferentes níveis de habilidade no basquete, de diferentes idades e profissões”, afirma a professora Raquel. Além disso, a atual coordenadora acredita que o projeto funciona como um local de encontro que não aconteceria, por exemplo, na quadra do bairro. “Os basqueteiros das cidades se reúnem e eu entendo que isso torna esse espaço de lazer mais produtivo”, revela a professora.

Para o professor Mário, o projeto estabelece uma conexão entre a universidade e a comunidade: “Tem sido nosso projeto um espaço de reencontro para aqueles que um dia jogaram, abandonaram o esporte e querem voltar a jogar, além de um ponto de encontro para aqueles que, jogando em diferentes pontos da cidade, vão à escola e acabam conhecendo companheiros que jogam em outros lugares”.

Serviço: O basquete é uma das 13 atividades comunitárias oferecidas pela ESEFID da UFRGS. O projeto oferece estacionamento gratuito e é aberto a todos os públicos. Os jogos acontecem às segundas e sextas-feiras, das 19h30 às 21h30, entre os meses de março e dezembro, respeitando o calendário acadêmico da UFRGS.  Local: Rua Felizardo, 750, Bairro Jardim Botânico.