Brasil passou 10 meses sem especialista no comando do Ministério da Saúde durante a pandemia

Entre 2020 e 2022, quatro ministros comandaram a pasta sob o governo de Jair Bolsonaro. Nenhum deles permaneceu no cargo por mais de um ano durante a maior crise sanitária da história do país.

Andrei dos Santos Rossetto

Por Lucas Azeredo e Gabrielly Camargo

Como parte do especial  “1.150 Dias”, que será publicado na sexta-feira (14), o Lab J preparou uma linha do tempo relembrando a dança de cadeiras dos ministros da Saúde do governo de Jair Bolsonaro enquanto o Brasil enfrentava a pandemia de COVID-19. Entre negacionismo e fake news, quatro homens foram responsáveis pelo gerenciamento da crise sanitária que resultou na morte de 715 mil brasileiros e brasileiras.

Luiz Henrique Mandetta (Jan/2019 a Abr/2020)

(Reprodução: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Luiz Henrique Mandetta, médico ortopedista, foi apontado para o Ministério da Saúde em novembro de 2018, logo após a confirmação da vitória de Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad e empossado oficialmente em 1º de janeiro do ano seguinte. Mandetta era, à época, deputado federal pelo Mato Grosso do Sul, seu estado natal, representando o Democratas. Ele foi o terceiro ministro do partido escolhido por Bolsonaro para compor sua base de aliados.

Mandetta, hoje no União Brasil, era o ministro quando os primeiros casos de coronavírus começaram a aparecer no mundo. Ele trabalhou diretamente com a OMS no início do contágio, mantendo o órgão informado sobre o número de casos e a evolução do vírus. Em março, o ministro se reuniu com João Doria, então governador de São Paulo e rival político do presidente Bolsonaro, e os dois acertaram termos sobre isolamento social no estado. A medida contrariava a política governamental, que minimizava o perigo real do vírus e priorizava a manutenção dos comércios abertos, colocando a economia acima da saúde pública.

Mandetta ficou à frente do Ministério da Saúde até o dia 16 de abril de 2020, quando foi exonerado. No dia 28 de março, ele diz ter entregue uma carta pessoal a Jair Bolsonaro. No texto, recomenda “expressamente que a Presidência da República reveja o procedimento adotado” para evitar o “colapso do sistema de saúde e gravíssimas consequências à saúde da população”. 

Nelson Teich (Abr/2020 a Mai/2020)

(Reprodução: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Médico de renome no Rio de Janeiro, o oncologista Nelson Teich assumiu a pasta no dia 17 de abril, um dia após a exoneração de Mandetta. Contudo, não chegou a completar dois meses no cargo, pedindo demissão no dia 15 de maio. Teich alegou divergências com Bolsonaro sobre isolamento social e uso da cloroquina como motivos para pedir demissão. Bolsonaro, seguindo a mesma linha política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acreditava no isolamento vertical, que limita a circulação de pessoas de grupos de risco para criar a “imunidade de rebanho”. Teich, por sua vez, defendia o isolamento horizontal, que deixava o maior número possível de pessoas em quarentena.

Sobre a cloroquina e sua derivada, a hidroxicloroquina, medicamentos contra malária que comprovadamente não eram eficazes no combate à infecção de COVID-19, Teich diz que sempre foi contrário ao uso do remédio no tratamento de pacientes infectados. Em 2021, durante testemunho à CPI da COVID, afirmou que existia um desejo do presidente de ampliar a aplicação do medicamento ineficiente e disse não saber da fabricação de cloroquina por parte do Exército.


Antes de sair do cargo, em entrevista ao Grupo Oncologia Brasil, Nelson Teich questionou a compra de equipamentos médicos para o atendimento às vítimas da pandemia: “Se você comprar tudo para todo lugar ao mesmo tempo é um volume de dinheiro muito maior que se você tivesse parado para comparar a evolução dos diferentes países do Brasil e fosse remanejando. Porque, por exemplo, hoje você tem um número de ventiladores mecânicos que você precisa, aí de repente você dobra a sua quantidade de ventilador mecânico. O que você vai fazer com isso depois?”.

Eduardo Pazuello (Mai/2020 a Mar/2021)

(Reprodução: Sérgio Lima/AFP)

O general da ativa do Exército Brasileiro Eduardo Pazuello (PL) comandou a pasta por 10 meses. No entanto, Pazuello não tem formação na área ou experiência profissional relevante para o cargo. Jair Bolsonaro justificou a escolha dizendo que o militar era um “especialista em logística”. Segundo informações apuradas pelas equipes do senador sergipano Alessandro Vieira (MDB) e da deputada federal Tabata do Amaral (PSB), houve um aumento de 2,7% para 7,3% na presença de militares trabalhando no Ministério da Saúde sob a direção de Pazuello.

Eduardo Pazuello assumiu o cargo em um dos períodos mais sensíveis da pandemia, quando o número de casos aumentou drasticamente em relação aos meses anteriores. No entanto, três semanas após ser empossado, o ministro alterou o horário de divulgação dos dados de mortes para depois dos telejornais de todas as emissoras e começou a ocultar informações oficialmente. Isso estimulou a criação do Consórcio de Veículos de Imprensa, que uniu redações para quantificar os casos de coronavírus e as vítimas do vírus de forma extraoficial, uma vez que o Ministério estava retendo os números. Foi durante sua gestão que o Brasil passou pelos momentos mais decisivos da pandemia, incluindo a decisão de compra de vacinas e o colapso hospitalar no Amazonas.

O dia 14 de janeiro ficará marcado na história da cidade. Nesse dia, os hospitais anunciaram que não havia mais cilindros de oxigênio disponíveis. A crise que, segundo o Ministério Público do Amazonas, matou mais de 60 pessoas por asfixia começa a se manifestar. Em dezembro, o número de casos estava sob controle, até que uma variante do coronavírus, apelidada de “Gama”, foi identificada em Manaus, com maior potencial de transmissão e letalidade. O Amazonas começou a sofrer os efeitos da “segunda onda”, com aumento exponencial de casos, especialmente graves. Foi quando o ar para respirar se tornou um item raro nos serviços de emergência hospitalar.

Antes do surgimento da variante Gama, o volume médio de oxigênio utilizado era de 14 a 15 mil metros cúbicos por dia. O número saltou para 76 mil metros cúbicos diários. Esse déficit esgotou as reservas do estado e fez com que parentes de pacientes internados brigassem pelos poucos cilindros disponíveis no comércio especializado. A Procuradoria-Geral da República afirma que o Ministério da Saúde foi informado pela White Martins, empresa de distribuição de oxigênio, no dia 8 de janeiro, de que a demanda era muito maior do que eles poderiam atender. O governo amazonense também recebeu o mesmo alerta. Para Pazuello, “todos os gestores, em todos os níveis, são responsáveis, cada um no seu nível de responsabilidade”, pelo ocorrido.

Pazuello visitou Manaus poucos dias antes da crise de oxigênio. Ele cobrou médicos para que usassem um tratamento precoce, criado com o aval e apoio do presidente, em pacientes com suspeita de coronavírus. Após assumir o Ministério interinamente no dia 16 de maio, sendo posteriormente efetivado, Pazuello incluiu no protocolo oficial do Ministério da Saúde as medicações sem comprovação científica da eficácia. O protocolo indicava o uso de difostato de cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, doxiciclina e sulfato de zinco. A BBC Brasil produziu um levantamento que mostra que o governo gastou quase 90 milhões de reais para sustentar o tratamento precoce.

Em outubro de 2020, o Ministério da Saúde anunciou a compra de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac. Contudo, Pazuello foi desautorizado por Bolsonaro, que não aprovou a compra da “vacina chinesa do Dória”. No fim, a CoronaVac foi aprovada pela Anvisa e aplicada no braço de Mônica Calazans, enfermeira que foi a primeira pessoa vacinada no país. O plano de vacinação teve início em janeiro de 2021, mas enfrentou alguns percalços. No mesmo dia 14 de janeiro, algumas secretarias estaduais afirmaram que o Ministério forneceu informações incorretas sobre o estoque de seringas. Pazuello também foi criticado pela demora em aderir ao Covax Facility, um sistema de logística para distribuição internacional de doses. O general foi exonerado do cargo em 23 de março de 2021. Hoje, Eduardo Pazuello é deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, representando o PL, e foi inocentado pela Justiça Federal do Amazonas por suas ações na crise do oxigênio após denúncia do Ministério Público Federal. 

Marcelo Queiroga (Mar/2021 a Dez/2022)

(Reprodução: Marcelo Casall Júnior/Agência Brasil)

Empossado em 23 de março de 2021, Marcelo Queiroga (PL) tornou-se o 50º ministro da Saúde do Brasil e o primeiro médico a comandar a pasta em quase um ano. Queiroga assumiu o cargo recomendando o uso de máscaras, o que não era a política do ministro anterior. “Agora é ‘pátria de máscara’. É um pedido que faço a cada um dos brasileiros: usem a máscara”, disse ele em declaração. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, o novo ministro enfrentaria o desafio de conter o crescimento no número de casos de contaminação e dar sequência ao plano de vacinação criado na gestão anterior.

O primeiro mês de Marcelo Queiroga foi o mais letal da pandemia: 81.253 pessoas morreram por causa da doença em março de 2021, o que também fez deste o mês com mais mortes na história do país. O dia com o maior número de vítimas da pandemia aconteceu quase uma semana depois de sua posse, em 29 de março, quando 3.478 pessoas morreram no Brasil em decorrência do coronavírus. Contudo, Queiroga defendeu a flexibilização das medidas de quarentena, afirmando que o sistema de saúde estaria preparado para enfrentar novos picos de contaminação.

“A China desde o começo pratica esses lockdowns, e qual foi o resultado? Na realidade o presidente Bolsonaro desde o princípio disse que é necessário enfrentar o problema de saúde mas também precisamos cuidar da nossa economia. Não podemos destruir o país e ficar todo mundo trancado em casa com medo. Temos que conviver com o vírus, não vai ser extinto, temos que conviver com a doença e para isso nós temos o nosso sistema de saúde”, afirmou o ministro. Queiroga deu continuidade ao calendário de vacinação contra a COVID, que imunizou 85% da população brasileira com ao menos duas doses, apesar da demora de Jair Bolsonaro em responder e-mails sobre a oferta de imunizantes ou sua ativa campanha contra a vacina. Marcelo Queiroga deixou o cargo no dia 31 de dezembro, com a vitória de Lula nas urnas, e foi sucedido por Nísia Trindade no atual governo.