Negligência, negacionismo e morte: 5 anos de pandemia no Brasil

Há exatos cinco anos, no dia 12 de março de 2020, morria a primeira vítima de Covid-19 no Brasil. Desde então, o mundo passou a viver um cenário de incertezas, vidas perdidas, crise econômica e instabilidade nas organizações.

Anita Ávila

Foto por: Adriano Machado/Reuters

O Brasil segue sendo o segundo país com mais óbitos no mundo pela Covid-19, de acordo com o Centro de Ciência e Engenharia de Sistemas da Universidade Johns Hopkins, responsável pela divulgação de dados durante a pandemia. O top dois no ranking mundial, é resultado do negacionismo científico e da desinformação promovidos pelo governo de Jair Messias Bolsonaro que contrariava a ciência e as medidas de proteção indicadas pela Organização Mundial da Saúde. “Durante esses quatro anos de governo, a população ficou dividida entre a ciência e a fala de uma autoridade política”, comenta Augusto de Oliveira, professor de Ciências Políticas da Universidade Pontifícia Católica do Rio Grande do Sul.

Enquanto médicos e cientistas tentavam tranquilizar a população, mediante a divulgação de atas e reuniões, o ex-presidente da República contrariava o bom senso através de lives nas redes sociais e em coletivas de imprensa. “Jair Bolsonaro, utilizando sua grande capacidade de comunicação e conexão direta com as pessoas por meio das redes sociais, optou por uma linha de atuação que contrastou com as melhores recomendações técnicas e científicas. Em um momento de pandemia e grande sofrimento, o mais conveniente seria termos uma postura política baseada nas melhores interpretações acadêmicas e científicas”, diz o professor.

O negacionismo durante a pandemia não surpreendeu os historiadores e cientistas. “Antes da pandemia, o presidente já enfatizava o negacionismo histórico. Ele nega o passado ditatorial do Brasil, por exemplo.”, comenta a historiadora Luísa Borgmann de Oliveira. 

Ao contrário do que poderia pensar parte da população, que o discurso de Bolsonaro era impulsivo e ignorante, as falas tinham caráter estratégico. O antigo governo defendia a movimentação da economia, mesmo diante de uma grave crise sanitária. “O brasileiro sempre teve duas questões muito sensíveis: a segurança e a economia. Ele fala desde o início, sobre não prejudicar essa base. Como convencer as pessoas? Entender que elas estão em um ambiente seguro e que podem trabalhar”, alega a jornalista Geórgia Santos, produtora do podcast “Rastro”, um diário que acompanha e analisa a gestão de Bolsonaro e a pandemia, nesses quatro anos.

A partir dessa lógica, Bolsonaro começa a provocar as autoridades e a minimizar a doença. “Primeiro, ele começa a distorcer. Chama de gripezinha e que vai pegar só em idosos. Depois ele transforma na questão da cloroquina e novamente na vacinação”, lamenta a historiadora Luísa. 

A Hidroxicloroquina, mais conhecida como Cloroquina, é uma droga popular, utilizada para o tratamento da malária. Porém, em meados de março de 2020, foi usada como método de combate à doença, mesmo sem qualquer comprovação científica. Diante disso, estudos mais recentes apontaram que o remédio não era eficaz e que poderia prejudicar no tratamento contra o Coronavírus. Além da “Cloroquina”, Bolsonaro também divulgava o “Kit Covid”, um conjunto de medicamentos, incluindo a Hidroxicloroquina, que auxiliava no tratamento precoce contra o vírus. Ambos não possuíam eficácia alguma, segundo a OMS. Associado a isso, o governo ainda desestimulava o uso de máscaras e vacinas

Com essas iniciativas, a gestão de Bolsonaro durante a pandemia fez com que o país enfrentasse episódios de sufoco. “Manaus é a prova desse negacionismo durante a pandemia. Os cientistas alertavam que trazer pessoas para a rua de uma forma tão bruta, poderia sobrecarregar”, diz Luísa Burgmann de Oliveira.

E sobrecarregou. Em Janeiro de 2021, já com um ano de pandemia, Manaus não teve nem leito e nem cilindro de oxigênio suficiente para a população. O desastre resultou na perda de quatro mil vidas, segundo a Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca. A notícia percorreu o mundo todo, mesmo com os dados e a popularidade do assunto, Bolsonaro continuava ignorando os apelos da comunidade científica e promovendo seu próprio método de “cura”.

O episódio de Manaus não foi o único caos que o país enfrentou durante o pico da pandemia. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI da Covid) constatou que 400 mil vidas poderiam ter sido poupadas, se não fosse o negacionismo do governo, ao todo 715 mil brasileiros perderam sua vida, nesse período. “Estudos mostram que se ele tivesse seguido as orientações da Organização Mundial da Saúde e se ele não tivesse se posicionado contra as medidas de proteção, centenas de milhares de vidas poderiam ter sido salvas”, lamenta Geórgia.

Porém, no final de 2021, o Senador Renan Calheiros (MDB), em seu relatório final da CPI, responsabiliza cerca de 66 pessoas pela gestão da pandemia, incluindo deputados, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e o ex-presidente. Bolsonaro foi acusado de nove crimes, entre eles: epidemia com resultado de morte e infração às medidas sanitárias preventivas, segundo a Agência Senado.

O negacionismo científico e político não se restringe ao Brasil. A disseminação de desinformação e a propagação de “fake news” por autoridades políticas, como Donald Trump, têm sido uma preocupação mundial. Isso resulta no pós-pandemia, com queda nas taxas de vacinação, especialmente entre crianças e o elevado número de mortes pela doença anualmente. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), esse cenário foi alertado em agosto de 2024, evidenciando retrocesso no combate às doenças.”O maior dano que a retórica negacionista de Bolsonaro causou na sociedade brasileira foi convencer as pessoas a não se vacinarem. A gente tinha uma das estruturas de vacinação mais eficientes do mundo há décadas”, diz a jornalista

O mandato de Bolsonaro dividiu a população entre aqueles que reproduzem suas falas e daqueles que se opuseram às suas ideologias, reverter esses dados demanda investimento dos próximos governos. “A desinformação chega muito mais longe do que a checagem depois. Vai ser muito difícil ou pelo menos muito demorado recuperar esse estrago. É um problema social que se precisa das escolas, da comunidade médica e do Estado”, finaliza a jornalista Geórgia Santos.