Por que as camisetas de futebol estão tão caras? 

Valor da peça de roupa extrapola a questão monetária e se estende para a relação do torcedor com o clube

David Ferreira

(Reprodução/David Ferreira)

Por David Ferreira

A camiseta de futebol é mais do que um uniforme. Ela atravessa gerações, carrega histórias, transforma torcedores anônimos em parte de algo maior. No estádio, nas ruas, nos dias de festa ou nos de derrota, é um sinal de identidade, de um compromisso que o torcedor assume com o seu time de coração. “É uma questão de patrimônio e símbolo do clube. É uma lembrança, uma relíquia de um momento que tu viveu com o clube, e está eternizada junto com a camisa”, afirma o jornalista e colecionador Eduardo Deconto.  

Mas como vestir esse símbolo tão importante quando um clube chega a cobrar mais de R$ 800 em uma camiseta? O Lab J foi em busca de respostas para compreender a importância das camisas para os torcedores, os fatores que influenciam no preço da peça de roupa e as diferentes formas de se relacionar com o produto. 

Eduardo começou seu estoque quando ganhava camisetas enquanto era criança, anos 2000, mas a busca assídua pelas camisetas iniciou durante as viagens que fez como repórter esportivo. A relação entre o valor das camisetas está diretamente ligada ao sentimento e a memória. “As camisas que comprei agora, por mais raras e bonitas que elas sejam, eu não tenho tanto apreço quanto as que tenho desde criança”, conta. Hoje, a coleção de Eduardo possui mais de 100 itens. 

O preço das camisetas 

Mas colecionar camisetas não é barato. Ao observar os custos do produto, a maior fatia fica com os impostos, que respondem por 40% do valor total, segundo a Associação pela Indústria e Comércio Esportivo (ÁPICE). Além da taxa por exportação do material de camisetas que vem majoritariamente dos Estados Unidos, o professor e gestor de marketing esportivo Fernando Luís Trein aponta que os contratos entre clubes e fornecedoras também são fatores que alteram o preço final: “Além do tecido encomendado pelas distribuidoras dos produtos de um clube, existe um ‘royalty’ de vendas para cada camiseta, e o custo disso para a marca que as produzem também acaba chegando no consumidor”.  

Essa diferença de abordagem, entre o preço do material e o preço percebido pelo consumidor, também pode ser vista na maneira como os modelos são disponibilizados. Os contratos com as marcas esportivas oferecem aos clubes a possibilidade de personalizar camisas para os torcedores e isso é adicionado no valor final da compra da camiseta. Os times normalmente oferecem variadas versões da camiseta oficial do clube, incluindo a camiseta na “versão jogador”, que possui mesmo tecido, tecnologia e símbolos das que os jogadores usam em campo, durante as partidas: “São camisetas que passam pelo processo de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Elas têm tecidos que não retém suor, que facilitam transpiração, uma série de características que acabam impactando o preço integral da camiseta” explica Fernando.  

“A camiseta do clube tem nela a história desse time, as cores, o brasão, com vários significados, que também contribuem num valor mais alto, e isso também reflete na fase desse time. É a mesma lógica em que na padaria, o pão quentinho vende mais rápido” diz Fernando, sobre um aspecto que também altera o preço de uma camiseta de futebol, que é a relevância do time para o público. “Por exemplo, uma empresa que vai negociar com um clube campeão da Série A e com outro clube que caiu para a Série B, obviamente são condições de mercado diferentes e, evidentemente, diferentes preços impostos em cima da camiseta”, concluiu.  

Clubes que possuem um retrospecto de conquistas no esporte, possuem uma demanda maior, ou seja, uma procura maior por parte dos consumidores a nível nacional e, muitas vezes, internacional. O professor exemplificou citando o Flamengo, que é um clube que ganhou muitos títulos na sua história recente. Hoje, uma camiseta autêntica de jogador do time rubro negro com os adesivos termocolantes de nome e número do jogador, custa R$ 734,89 no site oficial da empresa responsável pela produção dos itens. Junto à camiseta do clube carioca, a mais cara do futebol brasileiro é a do Corinthians, a qual, com as mesmas condições de personalização, custa R$ 849,90 no site oficial de vendas do clube. O preço inclui a porcentagem tributária de exportação do material, e valores pré-definidos por padronização do clube. “São condições de mercado. O Flamengo possui naturalmente uma projeção maior da distribuição dos seus produtos. Qualquer empresa que tentaria se associar com o clube, teria uma diferença em relação a outros clubes. Envolve o time saber o quanto vale a própria camisa.” afirma. 

As fornecedoras de camisetas dos clubes também oferecem opções mais baratas das camisetas. A “versão torcedor” é uma peça similar ao traje dos jogadores, mas fabricado com um tecido mais básico, e sem adesivos referentes aos patrocínios do clube, que aparecem na camiseta de jogador: “Hoje tu consegues encontrar algo que seja meio termo, que atende o público que gostaria de comprar a camiseta oficial, mas não possui a condição financeira pra isso”, conta Fernando. O professor também falou sobre as versões “réplica” das camisetas, que são alternativas licenciadas que os clubes oferecem ao torcedor que busca uma versão mais simples, e chega a um valor menor do que as outras duas opções de camisetas oficiais. “Hoje, o futebol tem diferentes tipos de perfis de consumo. Sabemos que é um esporte popular, que em algum momento já foi um elemento elitista, então por que não oferecer diferentes produtos para esses perfis?” explica.  

Camisas falsificadas movimentam mercado bilionário  

O mercado de camisetas não-oficiais de time gera um prejuízo de aproximadamente R$ 2 bi por ano, o qual impacta diretamente no comércio esportivo licenciado, e até mesmo, nos clubes. Mas, mesmo quando as “réplicas” oficiais chegam a valores que também são elevados para uma fração do público, a compra de camisetas não-oficiais se mostra como uma alternativa mais viável, oferecendo um produto que remete ao produto licenciado, mas por um preço mais acessível. Braian, vendedor ambulante que trabalha aos arredores dos estádios da dupla Gre-Nal, em dias que os clubes jogam, afirma: “Faz seis meses que eu estou nesse ramo, é um negócio de família. É também pelo público, que gosta de futebol, pela importância de usar a camiseta de time, né? Às vezes não se têm condições de comprar uma camiseta de R$ 500, R$ 600, mas aqui tá mais barato, né?” conta.  

Sua mercadoria possui uma margem menor de preço das oficiais. Braian vende camisetas de tamanho adulto por R$ 100, e ainda assim, flexibiliza os valores. O vendedor também relata que não altera os preços por conta de impostos, e isso já lhe gerou transtornos: “A gente não paga imposto. Na verdade, a polícia não gosta muito, mas eu prefiro mil vezes estar aqui, trabalhando, fazendo coisas pelo certo, do que estar fazendo coisa errada, entendeu? E mesmo assim, nós estamos no dia-a-dia, sabe? A gente tem que trabalhar” enuncia.  

(Reprodução/David Ferreira)

O mercado das camisas “valiosas” 

O almejado “manto” de um time é um elemento de muita importância para o vínculo de um clube e seu torcedor. A peça na qual se carrega as cores e história de um time, vem ganhando espaço não apenas como uma peça usada por admiradores durante uma partida ou pelos jogadores em campo, mas sim, como um artigo versátil para as variadas ocasiões. Eduardo, conta que grande parte de sua coleção é adquirida através desse mercado: “Hoje sigo perfis que vendem camisetas raras, antigas e, às vezes, vejo ofertas que não deixo passar, acabo fazendo uma compra por semana”. 

Um dos seus locais de compra, é o Brechó do Futebol em Porto Alegre – brechó de artigos de roupa esportiva que completa 15 anos em 2025. O dono do espaço, Carlos Caloghero,  compartilha que a revenda de camisas não se baseia apenas na quantidade, mas também na demanda e no tempo em que a peça fica disponível para venda. “Por exemplo, se alguém me vende 10 camisetas e eu pago R$ 1,5 mil por elas, dessa quantidade sempre tem umas camisetas que eu vendo bem rápido e com uma margem supostamente boa. Digamos que eu venda duas dessas por, sei lá, com uma margem de 100% mesmo e eu ainda tô com dinheiro pra trás, né? Porque eu ainda não recuperei o montante que eu passei pra pessoa que me vendeu”, explica.  

De acordo com Carlos, a valorização das camisas de futebol não é algo imediato, especialmente em modelos recentes. Ele explica que a maioria das camisas, mesmo as mais novas, não apresentam um grande potencial de valorização. “Essa questão de valorização não existe. Por exemplo, digamos que um clube lançou a nova camiseta para a temporada. Essa mesma camisa pra estar valorizada, pra gente conseguir vender ela por um preço maior do que alguém paga na loja oficial… vai demorar, eu diria, que uns 10 anos”, explica. 

Entretanto, o dono do brechó observa que existem exceções. Camisas relacionadas a eventos e conquistas importantes, podem ter maior demanda no futuro. “Se tu tem, por exemplo, uma camiseta de 2008, na etiqueta e sem uso é uma camiseta que valorizou, só que já passou quase 20 anos, tu entende? Então, não vale a pena tu comprar, guardar a camiseta por tanto tempo” afirma. “Mas uma camiseta hoje, do Grêmio campeão da Libertadores de 2017, se tu tiver ela na etiqueta, de repente alguém te paga R$ 500, uma de jogador, certamente.”