Vitória histórica do Brasil anima praticantes do beisebol em Porto Alegre

Sem campo, praticantes lutam por espaço e revelam as dificuldades em promover o beisebol para além do nicho.

Lucas Polidori Azeredo

Pela primeira vez em 13 anos, a Seleção Brasileira de Beisebol classificou-se para o World Baseball Classic, o mundial da categoria. A vitória decisiva por 6×4 contra a Alemanha, ocorrida na última quinta-feira (6), carimbou a vaga do Brasil para a competição, que será realizada em março de 2026 com jogos sediados nos Estados Unidos, Porto Rico e Japão. O triunfo alimenta a esperança da Seleção conquistar vaga inédita para as Olímpiadas de 2028, em Los Angeles, quando o beisebol voltará ao calendário dos jogos olímpicos. Em Porto Alegre, a euforia pela classificação se mistura com a ansiedade pela chegada de um novo torneio na capital desse esporte que luta para ter o devido reconhecimento.

(Reprodução/Lucas Azeredo)

“A minha vitória, de fato, é divulgar o esporte para fazer as pessoas conhecerem mais aqui em Porto Alegre”, diz Davi Emerim, fundador do time Pombas de Porto Alegre. Davi descobriu o beisebol durante a pandemia, assistindo o desenho animado “One Outs”. Ele diz que a série  atraiu sua atenção ao esporte pois “traz um lado mais psicológico do beisebol, que eu não sabia, como ele era muito complexo”.

Emerim iniciou a sua trajetória no White Tigers, que atua há mais de 20 anos na capital gaúcha. “Eu comecei a me interessar por beisebol e estava decidido a jogar com o pessoal pra ver o que ia acontecer. Eu comecei bem devagar, sabe? Só pra pegar uns fundamentos. Aí eu comecei a ter ideias pro meu time”, explica. Ele encontrou uma cena fraca em POA. Um verdadeiro nicho.

Davi conta também que um dos motivos para o nome da equipe surgiu de um encontro peculiar seu durante uma partida de beisebol quando jogava pelo White Tigers: “Eu fui defender uma bola (no alto) e ela não descia. Eu pensei ‘O que que aconteceu, meu Deus, que essa bola não desce?’. Eu estava seguindo uma pomba. Ela veio na mesma trajetória que a bola e eu jurei que a pomba era a bola. Daí eu pensei: ‘Ah, então as bolas são que nem pombinhas’”, comenta.

(Davi Emerim, que normalmente é rebatedor do Pombas, quebra o galho como juiz. Reprodução/Lucas Azeredo)

Nem mesmo a forte chuva da manhã de domingo afastou o Pombas do campo de jogo, ainda por cima em semana de competição. Pela primeira vez na história, Porto Alegre terá um torneio oficial não só de beisebol, mas também de softbol, uma versão mais simples do esporte jogado com uma bola macia. O campeonato será realizado nos dias 16 e 30 de março no Parque Marinha do Brasil e colocará os principais times da capital frente a frente na disputa, que tem apoio da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer.

Davi traz consigo duas grandes malas repletas de equipamentos. Os materiais, como tacos e luvas, que normalmente custam caro ou precisam ser importados dos Estados Unidos, foram dados de presente por um amigo americano de Emerim. Entre as 25 luvas novinhas guardadas em uma das bagagens, ainda tem a sua primeira, cheia de marcas de guerra. Cada vez que abre as malas, faz questão de contar cada um dos itens para ter certeza de que não perdeu nada no meio do caminho. Ele precisa ter equipamento para, no mínimo, 18 jogadores (nove em cada time) para ter jogo. Além disso, precisa das bolas feitas de cortiça, que, na mão de um profissional, pode alcançar velocidades de até 170 km/h quando arremessada.

O campo do Parque Mascarenhas Moraes, no bairro Humaitá, está sendo preparado com as quatro bases que formam o chamado “diamante”, definidor do caminho em que os atletas podem correr para marcar pontos. Cada vez que um jogador dá uma volta completa no “diamante”, é anotado um ponto para a equipe. Para isso, quem empunha o taco de beisebol deve conseguir uma rebatida válida ao fazer a bola passar pela defesa adversária sem contestação. Todas as vezes que querem jogar, precisam preparar o campo improvisado em canchas de futebol, com dimensões incompatíveis para seu esporte. 

Em Porto Alegre, não existe um local específico para a prática de beisebol. Porém, a prefeitura prometeu aos times, e também para o Pombas, tentar viabilizar um espaço exclusivo, desde que consigam apoio da iniciativa privada. “Para fomentar o esporte, precisa da criação de mais campos. A classificação (da Seleção Brasileira) foi só um empurrãozinho”, afirma Davi. Enquanto o projeto não sai do papel, as equipes brigam por horário contra partidas de futebol de várzea.

No aquecimento antes do treino, o português não é a única língua falada. O beisebol é o principal esporte da grande comunidade de venezuelanos que imigraram para a cidade nos últimos anos. Tanto é que formaram times próprios, como os Criollos e os Navegantes, que farão um triangular amistoso com o Pombas de preparação para o torneio municipal nesta manhã de domingo. Porém, essa peculiaridade não é exclusiva de POA.

(Muitos jogadores do Criollos de Venezuela jogam com camisetas agradecendo a receptividade do Brasil com imigrantes. Reprodução/Lucas Azeredo)

A Seleção Brasileira também é internacional. Dos 28 jogadores convocados para o qualificatório do World Baseball Classic, 19 jogam fora do país. Quatro nem nascidos no Brasil são. Enzo Sawayama e Arthur Tsujiguchi nasceram no Japão, enquanto Dante Bichette Jr. e Lucas Ramírez são estadunidenses de nascença. Todos têm pais ou parentes brasileiros e escolheram representar o Brasil. Bichette e Ramírez também são filhos de ex-astros da Major League Baseball, a principal liga do mundo: Dante Bichette, quatro vezes selecionado para o All-Star, e Manny Ramírez, campeão de duas World Series com o Boston Red Sox e lenda da MLB.

Mas, a comunidade nipo-brasileira é a mais representada na Seleção. Ao menos 10 jogadores ostentam sobrenomes japoneses. O Japão é casa para a NPB, considerada a segunda melhor competição entre times. Bo Takahashi, arremessador do Seibu Lions, é o único do atual elenco brasileiro jogando por lá. A explicação para tamanha presença japonesa? O Brasil abriga a maior comunidade nipônica fora do Japão, com quase duas milhões de pessoas. Os imigrantes da Terra do Sol Nascente, uma centena de anos atrás, trouxeram junto de si o esporte, o mais popular do país.

Para o World Baseball Classic, a Seleção Brasileira espera novos reforços internacionais. Bo Bichette, irmão de Dante Jr., cuja mãe é porto-alegrense, é titular incontestável do Toronto Blue Jays da MLB. Ele comprometeu-se a jogar o WBC caso o Brasil conquistasse a classificação, uma vez que não pôde participar do qualificatório por conflito de data com a pré-temporada do Blue Jays. Ainda há o sonho de Dylan Lee, arremessador do Atlanta Braves (MLB), e Alex Bregman, um dos grandes rebatedores da liga americana, participarem do mundial pelo Brasil. Os dois têm parentes brasileiros e não são convocados pelos Estados Unidos.

(Jaiver, jogador do Pombas, luta valentemente contra a chuva, o vento e o frio. Reprodução/Lucas Azeredo)

De volta ao Humaitá, o triangular amistoso termina com vitória dos Criollos de Venezuela, com o Pombas em segundo lugar e os Navegantes de Canoas em terceiro. Apesar do frio e da chuva pesada, ninguém se rendeu. Entre escorregões e camisetas encharcadas, Davi tem orgulho do quão longe já chegou com o time, especialmente de onde partiu para criar  essa comunidade. “Eu usei de todos os tipos de divulgações. Eu já passei duas horas na Redenção falando com as pessoas. Às vezes eu fazia assim e eu conseguia uns 60 seguidores. Aí depois eu comecei a divulgar na UFRGS, através de panfletos. Agora, a minha forma de divulgar agora os times vai ser através do torneio”, diz.

O beisebol, apesar de sua longa história no Brasil, está afastado dos holofotes da mídia. O primeiro registro da prática do esporte em terras brasileiras foi por volta de 1850, com os funcionários americanos de empresas transnacionais com sede no país. Depois, estimulado pela crescente comunidade nipo-brasileira, o beisebol ganhou força até a criação do primeiro campeonato brasileiro, realizado em 1936. Para efeito de comparação, o primeiro campeonato oficial de futebol no país só ocorreu duas décadas depois, em 1959. 

Entre os profissionais, existe a dificuldade de viver do esporte dentro do território nacional. “Nunca conheci um jogador (no Brasil) que ganhe dinheiro com beisebol”, afirma Davi Emerim. Isso se evidencia na divisão do tempo dos atletas da Seleção que atuam no país com outros ofícios. Osvaldo Carvalho Jr., que jogou no time que levou o Brasil ao WBC, foi servente de pedreiro até 2024. Abandonou a profissão, se tornou o melhor jogador do campeonato nacional pelo Nikkei Marília e até hoje não recebe nada financeiramente. Seu exemplo não é único. Raphael Parra, conhecido como Marrom, ganhou a prata no Pan de 2023 e trabalha como soldador em uma fábrica de ração.

A classificação do Brasil impulsionou essa luta para o reconhecimento do beisebol. O torneio municipal, uma conquista da luta de Emerim e de outras equipes, mostra que há espaço para o esporte e que o apoio da esfera governamental existe. Davi resume o seu propósito para tanto esforço: “O meu objetivo, como jogador, é popularizar o beisebol para divulgar os times e tornar a nossa cultura conhecida. Tudo que eu passo para jogar não é para vencer ou perder”.